• Maíra Martins

A Estreia

A estreia seria naquele dia, mas não foi, e a noite acabou com uma cena que me deu “Ensaio sobre a cegueira” feelings: eu sozinha, com a perna sangrando, andando por ruas cariocas alagadas enquanto ajudava e era ajudada a caminhar segurando nas grades dos prédios para evitar os variados acidentes possíveis nesta situação. Quem mora no Rio já viveu ou já viu esta cena.

Não lembro como estava o tempo quando saí de casa, se existia alguma previsão do que aconteceria, mas sei que eu não tinha sequer um guarda-chuva na bolsa. Cheguei ao teatro por volta das 16h para reestrear o “Tremores”, o espetáculo mais ousado que já fiz (e talvez o único que eu chame de “espetáculo” e não de “show”). A ideia surgiu a partir do curso “Preparação Corporal para Cantores”, que fiz com Ana Kfouri lá por 2003, 2004. Repeti tantas vezes o curso que na última já era bolsista, acho que elas já estavam sem graça de me cobrar. Ana tinha como auxiliares sua filha Ana Abbot e também Maria Clara Hertz, e as três se tornaram fundamentais na minha vida a partir daquele momento. Existe um antes e depois deste encontro pra mim.

Em muitos dos exercícios propostos éramos convidados a cantar músicas dos nossos repertórios buscando estados físicos específicos, pesquisas teatrais variadas, diferentes relações com as letras das canções e com a própria musicalidade, enfim, tudo o que uma jovem cantora de vinte e poucos anos precisava devorar. E eu devorei. Lembro que em um dos exercícios cantávamos a mesma música com dois estados diferentes, o que acabava por trazer diferentes emoções à interpretação e muitas vezes acabavam por transformar completamente o sentido da própria letra. Uma das músicas que escolhi foi "Bodas de Prata”, de João Bosco e Aldir Blanc, que amava desde criança (sim, eu era esta criança) e foi uma surpresa pra mim quando, ao mudar de intenção física e emocional durante a interpretação o eu lírico mudava de personagem. Na primeira vez eu era a Maria, na segunda eu me transformava em Dora. Cada palavra tinha seu sentido automaticamente transposto e o que era dramático subitamente virava irônico, uma surpresa revelada durante o exercício. Acho que o próprio Aldir se surpreenderia com o tamanho da polissemia possível em sua letra.

O convite para realizar o espetáculo veio da própria Ana Kfouri, curadora do projeto SESC Experimental, que sugeriu a mim e ao Augusto realizarmos espetáculos solo a partir do que havíamos trabalhado nas oficinas. Ana Abbott e Maria Clara Hertz seriam as diretoras, e o meu solo se chamaria “Tremores” e seria composto por um repertório somente de canções que falassem de amor. Nada mais óbvio, certo?

Só que não era. Eu estava sozinha no palco. Não tinha banda, não tinha apoio harmônico nenhum e o único parceiro presente durante todo o tempo era o iluminador. Aliás, foi com este trabalho que descobri o poder de uma luz bem desenhada - como pode fazer uma interpretação crescer, ganhar ares teatrais, transportar a plateia para uma outra realidade. Isso tudo era novidade pra mim. Em uma das músicas eu tinha a participação de uma percussionista, que entrava da plateia me acompanhando ao pandeiro no “Samba de um minuto”, de Rodrigo Maranhão. Clarice Magalhães, Patrícia Bley e Mariana Lima foram as convidadas para as diferentes apresentações.

Depois de passar pelo SESC e também pelo Café Cultural, desta vez eu estrearia no Teatro Cacilda Becker, através de um edital de ocupação. Não tinha patrocínio, mas mesmo assim o primeiro edital a gente nunca esquece, e foi uma delícia a sensação inusitada de estar em um teatro dedicado à dança. Aurélio Oliosi desenhou a luz, Mariana estaria no pandeiro naquele samba e só. Aninha e Marie me ajudaram no ensaio, mas não poderiam estar presentes no dia da estreia.

Saí de casa sem guarda-chuva, tipo 16h cheguei no teatro andando pois morava perto. Passei a luz uma última vez pois era tudo muito marcado e o espaço, bem diferente dos que já tinha feito. Comecei a aquecer corpo e voz, me concentrar, respirar. Era tudo muito perigoso e emocionante: o fato de estar sozinha em cena, a falta de palmas entre uma música e outra (como era tudo emendado geralmente os aplausos eram só no final), a necessidade de segurar a atenção da plateia até o fim assistindo a algo tão diferente e inusitado. Havia também a necessidade de decorar o tom de cada música, pois algumas têm grandes extensões e se eu saísse muito do tom ideal poderia ser um estrago. Eu tentava decorar a relação tonal entre uma música e outra, e manter a maior estabilidade de afinação possível durante as músicas, sem perder toda a movimentação, as intenções, os climas. Haja concentração, ainda mais para uma cantora que não é atriz.

Foi chegando perto da hora

, fui me maquiar e demorei três minutos. Não sabia me maquiar. A roupa era um vestido longo preto e eu descalça. Estava pronta em quatro minutos. Desci para me posicionar pois já estaria escondida no segundo andar da plateia quando as pessoas entrassem.

Ao chegar no palco do camarim, algo estranho - uma goteira em cena. Parecia que chovia bastante, pegamos um balde. Ficou feio, mas seguimos em frente. O que não tem remédio não tem remédio mesmo. Fiquei sabendo que ainda não tinha ninguém na bilheteria pra comprar ingresso e, inclusive, não haviam chegado as pessoas que compraram antes.

Dez minutos pro início, ainda nada. Será que ia ter espetáculo? Se chegar uma pessoa, eu faço, combinei com a equipe. Aguardamos. Passaram mais alguns minutos e mais uma goteira, desta vez na técnica, em cima da mesa de luz. A equipe do teatro correu, mudou a mesa de lugar, pegou baldes. Não tinha como ter espetáculo, eles disseram, e de qualquer forma não havia chegado ninguém. Parecia que chovia muito lá fora. Do teatro, não fossem as goteiras, não teria como saber. Não se ouvia nem se via nada. Fui me arrumar pra ir embora.

Foi nesta hora que, descalça, de volta para o camarim, escorreguei na água de uma goteira caindo na escada. Nada demais, só depois me dei conta de que estava sangrando, machuquei a perna e nem percebi de tão aérea que estava pelo nervoso da situação toda. Troquei de roupa, peguei a bolsa. Me dei conta de que tinha 53 reais na carteira e fiquei de dar 50 pra Mariana. Estava contando com a bilheteria, que receberia no final do espetáculo. Tudo certo, pois morava perto e iria andando pra casa.

Andamos até a rua e aí sim tivemos a dimensão do que estava acontecendo fora do teatro. O Catete era um rio, os carros não conseguiam andar e as pessoas estão ilhadas em lugares onde o piso é mais alto. Soube no dia seguinte de algumas pessoas que tentaram ir ao teatro mas simplesmente não conseguiram atravessar a rua e voltaram pra casa. Pensei que com calma ia conseguir chegar na minha casa, que era cerca de cinco quadras dali.

Desisti de andar, era impossível e perigoso. Tive a ideia de entrar no cinema e assistir um filme - pagaria no cartão, esperaria ali algumas horas e iria pra casa depois, quando a água tivesse descido. Mas o cinema tinha fechado pois estava chovendo dentro. Não dava pra ficar nem na galeria pois ela também estava fechando por conta do início de uma inundação. Não sabia o que fazer. Iria pegar um ônibus então, alguns deles já conseguiam andar lentamente enquanto jogavam uma quantidade absurda de água nas pessoas pelas ruas. Qualquer ônibus servia pra mim. Só tinha três reais na carteira mas a passagem era dois e cinquenta, ia dar. Consegui entrar no ônibus mas ele não andava. Eu, já morrendo de fome, me dei conta de que minha perna ainda estava sangrando. Não tinha nada a fazer pra estancar o sangue.

Depois de alguns minutos, andamos. O caminho era curto mas o tempo era longo pois era quase impossível seguir em frente. Vi minha rua chegando e levantei pra saltar, mas foi quando percebi, pela primeira vez, que perto da Silveira Martins a rua do Catete é desnivelada, fazendo um bolsão de água. Conforme ia chegando mais perto o nível ia aumentando e já via pessoas andando com água pela cintura. Só tinha cinquenta centavos na carteira, meus pais estavam viajando, meu namorado também, não conseguia pensar em quem poderia me ajudar. Vi minha rua passar enquanto o ônibus seguia em direção à Glória.

Felizmente percebi também que quando chegou na Glória o bolsão acabou e a água já estava em um volume mais possível de caminhar. Saltei do ônibus sem saber exatamente pra onde estava indo. Vi algumas pessoas andando em direção à praia do Flamengo e resolvi segui-las, talvez por lá eu conseguisse chegar na minha rua. Realmente era bem melhor, o nível da praia do Flamengo é bem mais alto do que o da Rua do Catete e eu nunca tinha reparado. Dava pra andar tranquilamente até chegar à minha esquina, mas pra entrar na minha rua… seria melhor um barco.

Vi algumas pessoas vindo na minha direção andando rente aos prédios, segurando nas grades. Percebi que outras iam na direção contrária e quando se cruzavam elas davam as mãos, umas ajudando as outras, com semblantes de desespero mas rindo da situação - os cariocas são assim. Não tinha remédio a não ser seguir seus exemplos. Ficar parada na Praia do Flamengo sozinha naquela hora esperando melhorar a situação não era uma opção. Ainda por cima chovia e eu estava sem guarda chuva. Ainda por cima minha perna estava sangrando. Ainda por cima não tinha tido estreia.

Respirei fundo, segui em frente, me esforçando pra não pisar em buraco nem em nada que desse choque. Melhor nem pensar no machucado da perna porque não adiantava. Agora era chegar em casa, tomar um banho de álcool e rezar, e foi isso o que fiz. Já de banho tomado e cheia de álcool pelo corpo liguei chorando pro Augusto, tentei contar o que tinha acontecido mas não conseguia concatenar as ideias. Fui dormir pensando em quem não tinha uma casa pra chegar. Este é o meu Rio de Janeiro.



2 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Diana

maíra martins©2020

desenvolvido por tatiana agra