• Maíra Martins

Carta a uma jovem cantora

Sabe, Júlia, não houve exatamente uma escolha de Sofia no momento em que tive que tomar a decisão do que fazer quando crescer. Bem que tentei durante algum tempo pensar em alguma outra coisa que eu pudesse fazer bem e que me faria feliz na vida, mas não teve jeito. Ser cantora, ser artista, isso tudo era bom demais e continua sendo, e, mais do que bom, era eu purinha. Mas acho que nem de longe eu poderia imaginar o quanto esta profissão me faria ralar, aprender, ensinar, ralar mais um pouco, me desconstruir algumas vezes e me reconstruir sempre mais inteira, mais consciente, mais velha também (ops). E nem de longe poderia imaginar o quanto esta profissão me faria feliz.

Mesmo assim, me pego agora repetindo pra você neste momento de decisão tão importante, as perguntas feitas a mim por meu pai: você tem certeza disso? Não tem nada que você possa querer fazer para ter estabilidade enquanto o canto fica como hobbie? Pense bem…

No meu caso as respostas eram: sim, eu tinha certeza. Não, não tinha mesmo nada mais que eu pudesse querer fazer. Até tentei durante alguns minutos uma faculdade de História enquanto era reprovada em alguns testes de habilidade específica em música no curso que eu queria, mas realmente o caminho era este. Era viver de fazer tal casamento entre canções e momentos. Viver de mergulhar nas emoções, minhas e nas dos outros, através de conexões variadas com meu corpo, com o repertório amado do meu país e do mundo, das minhas possibilidades vocais, expressivas e musicais. Nunca vi sentido na vida que não fosse por este caminho e esta foi a resposta para as perguntas do meu pai.

Levar o que eu aprendo a outras pessoas para compartilhar este caminho comigo e me tornar professora de canto foi algo natural. Para algumas pessoas isso acontece por necessidade, afinal, como se paga contas todo mês sendo cantor é normalmente um mistério mesmo, mas pra mim foi também uma paixão, uma forma de me conectar com o âmago daquilo que é meu ofício através de caminhos que eu nunca teria trilhado sozinha. Agradeço aos meus mestres e alunos por nunca ter estado sozinha vendo as belezas e as dificuldades disso tudo.

Acho que, no meu caso, nasci cantora e, a partir disso, criei muitos outros personagens pra sobreviver: virei também professora, regente de coro, arranjadora, produtora, tradutora, marqueteira, editora de vídeo, e otras cositas más que a gente vai tendo que dar conta pra que seja possível existir enquanto artista neste país.

Não teria como dizer com propriedade qual era a sensação de estar em outros tempos tentando a profissão, mas sobre estar aqui agora é o seguinte: o lance é mais democrático do que já foi por um lado (a internet está aí pra quem souber usar) e também cruel por outro, afinal, como continuar sendo boa cantora tendo que dar conta de tantas atividades que vêm no pacote? Mas não reclamo. Acho que a gente ter que se transformar em polvo é gostoso também porque ficamos donos do que fazemos em níveis que muitas estrelas descobertas por gravadoras não eram (e não são). Músicos independentes são donos do próprio nariz, do repertório, do arranjo, do projeto, das dívidas.

É trabalho pra uma vida tentar submergir nesta maré, e por isso é que te pergunto, antes que decida encarar este desafio: é possível pra você fazer alguma outras coisa que não seja isso? Se a resposta for sim, talvez sua vida seja mais fácil, mais organizada, e você não precisa e não deve parar de cantar. É possível levar uma vida criativa sem usar a arte como ganha-pão e usar a sensibilidade artística para manter a alegria fora do horário de trabalho, e isso é lindo. Se mais gente fizesse isso, o mundo seria um lugar melhor. Se a resposta for "não", bem vinda ao clube e boa sorte. Sei que você batalhará muito por ela daqui pra frente.



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