• Maíra Martins

De improviso

Esta história começa na minha adolescência, no pátio do CEAT, em alguns dos muitos saraus realizados por lá. Do alto dos meus quinze anos e já tendo me apresentado aqui e ali, eu morria de inveja de uma menina que encantava a todos com seus dotes de cantora, munida de uma banda e de uma segurança que me impressionava. Enquanto eu ainda não me sentia pronta, era super tímida e preocupada, ela chegava na minha escola (MINHA ESCOLA) e simplesmente cantava sem medo, soltando a voz e a emoção, arrasando os corações enquanto eu, assistindo incrédula alguém da minha idade fazer aquilo, dizia, ironicamente para minhas amigas mais próximas: “Essa menina pensa que é a Marisa Monte”.

O tempo passou. Eu também virei uma cantora mais segura, que cantava para o público com alguma regularidade e menos timidez, e nos reencontramos na faculdade. Eu lembrava mais dela do que ela de mim, claro, e fomos nos conhecendo e nos reconhecendo nas salas de aula, no pátio da UNIRIO, em eventos onde nos encontrávamos por termos amigos em comum. Eu comentava com amigas da época: “você não vai adivinhar de quem estou amiga… Da Elisa Addor!”

Assim nasceu nosso primeiro show juntas, em que cantávamos apenas músicas do nosso amigo Edu Prestes. Sim, é neto do homem, e compõe com uma naturalidade que me encanta até hoje. A ideia partiu de nós duas, apaixonadas por suas músicas, e o show era formado por nós três e banda. Um marco pra mim: a primeira vez em que encarei um repertório todo inédito dentro do qual pude criar minha interpretação sem outras referências, me descobrindo como intérprete.

Depois de rodar um pouco com o show do Edu resolvemos seguir inventando moda juntas, mas desta vez "traindo'' ele, e cantando também outros compositores amigos nossos e uma ou outra música conhecida do grande público. “Novas cantoras para novas canções” era o nome do show, e a partir das experimentações com este projeto surgiu o meu primeiro disco alguns depois.

Entre os espaços nos quais nos apresentamos estava a Estudantina, no centro do Rio de Janeiro. Faríamos o show, pela primeira vez, em um espaço maior e imponente. Um certo nervosismo tomou conta de mim. Era emocionante e assustador cantar num lugar tradicional como aquele e isso fazia eu me sentir, agora sim, uma cantora de verdade. Nosso som preenchia o espaço onde tanta história já aconteceu, onde tantas orquestras e crooners da noite já se apresentaram, onde tantos casais já dançaram.

O show intercalava momentos de duetos e solos. Quando Elisa cantava eu aprendia. Adorava seu jeito de se jogar sem paraquedas na música, daquela forma que só quem tem muita segurança e liberdade consegue. Ela brincava com as canções e parecia não pensar tanto no que fazia, como eu. Sentada ali, analisando sua performance, eu pensava sobre como poderia roubar um pouquinho daquela espontaneidade pra mim.

Chegou minha vez de cantar sozinha. A música era “Pintura”, de Alan Sommer, que é uma música intensa que tinha já uma ideia de arranjo do Augusto que seria o embrião do que gravamos no disco “Processo de Feitura”. Eu tinha estudado aquela letra a fundo, conversado com o compositor, treinado as nuances vocais, daquele jeito que gosto e sei fazer. Além disso, estava naquele momento fazendo um curso de preparação corporal para cantores com Ana Kfouri e lembro que esta música serviu de repertório de aula e o caramba. Eu sabia o que eu queria dizer, com que intenção queria me movimentar, o que queria passar com a canção. Só não pude antecipar a barata.

Isso mesmo, a barata. Na parte mais delicada da música senti algo se movendo nas minhas costas, lentamente. Sem saber o que era aquela cosquinha, tive tempo de pensar no que fazer enquanto tentava não me desconcentrar e manter a força da interpretação. Não havia outra solução a não ser pegar com a mão o ser pegajoso e me desfazer dele de alguma forma. Não foi uma tarefa fácil alcançá-lo porque o alvo se mexia. A música seguia, a letra encaminhava para o refrão enquanto eu me acariciava lentamente num movimento improvisado cheio de sensualidade. Depois de me contorcer um pouco (pensando bem não devia ter sensualidade nenhuma) enquanto procurava meu objetivo, consegui enfim pegar o bicho com a mão e ainda tive a curiosidade e a coragem de olhar o que era, discretamente, antes de lançar o quer que que fosse ao chão, num gesto ritmado, jogando um dos braços para o lado. Eu ainda soltava a voz no auge da música quando finalmente a vi. Eu havia pego uma barata. Com a mão. Uma barata cascuda, grande, nojenta, daquelas que gritaria e sairia correndo se visse na minha sala de noite. Mas era palco, era show, era a cantora que estava ali. Corajosa, espontânea, pronta pro improviso. Como Elisa.



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