• Maíra Martins

De mãos dadas

Foi através de um anúncio publicado no jornal que vieram os primeiros alunos, Marcelo e Kelly. Eu já havia dado algumas aulas a um amigo, mas a coisa não seguiu muito. Foi com Marcelo e Kelly que me vi professora de verdade pela primeira vez. Foram minhas primeiras cobaias numa época em que dar aula parecia um atrevimento: como eu, ainda tão inexperiente, poderia ousar ensinar alguma coisa a alguém?

Esses primeiros alunos trouxeram outros, e não sei bem como de repente me vi cheia de gente que achava que sim, eu tinha alguma coisa pra ensinar. E eu, que nunca tinha tido o magistério como plano, me vi tão apaixonada pela possibilidade de fazer música dentro desta nova carreira de professora, como era pela minha outra, ainda incipiente, de cantora.

Acabou que as duas personas andaram juntas sempre - a cantora e a professora de mãos dadas, uma dando apoio pra outra. Eu sempre brinquei dizendo que a professora sustentava a cantora, pagava as contas todo mês, investia nos CDs e tal, mas sei também que é a cantora quem ensina os caminhos, quem passa pelas dificuldades técnicas, que sente na pele o que os alunos sentem, e esta experiência é essencial para a professora saber como ajudar, o que inventar para descobrir as opções de caminhos possíveis a serem propostos.

Já se vão vinte e um anos desde que comecei esta brincadeira. Os primeiros dez foram intensos. Muitos alunos particulares, grupos, escola de teatro, preparação vocal de peças, de CDs, de shows. Eu trabalhava sozinha, em casa, e depois de um tempo como assistente da minha professora Angela Herz, em sua salinha em Botafogo. Nesta época também estudei por três anos seu método e assisti a muitas aulas desta mestra do canto, do domínio das energias e de tantas coisas que seria impossível descrever. Totalmente avessa aos caminhos fáceis e rápidos, Angela considerava imprescindível que eu estudasse teoria, prática e ainda assistisse às aulas que ela ministrava durante a maior quantidade de tempo que eu pudesse.

Havia semanas em que eu ia três, quatro manhãs inteiras para assistir e fazer observações sobre os encontros dela com seus alunos dos mais diversos níveis. Ali, como testemunha ocular e auditiva, vi se despirem de qualquer pudor vocal amadores e profissionais de todas as idades. Vi uma mestra na arte do ensino em atividade me proporcionando uma formação que foi mais importante do que qualquer estudo formal que eu tenha feito antes ou depois. Sempre digo: tenho faculdade disso, mestrado daquilo outro, pós em não sei o quê, mas a minha formação mais importante é: Angela Herz.

Hoje, ao ver pipocarem esses cursos nos quais a pessoa sai certificada em métodos de ensino de canto em poucos finais de semana, acho curioso. Recentemente fiz o primeiro nível de um desses que foi realmente muito interessante e transformador e fez brotar em mim muitos novos pensamentos, mas nada se compara à profundidade que tive naqueles anos de estudo, de pesquisa, de encantamento. Mas que dá muito mais trabalho, dá.

Como a profissão de professora particular é algo bastante instável, bem que tentei outras formações e trabalhos durante alguns anos, sem nunca ter largado completamente os alunos particulares, mas acabei dando um giro de 360 graus e voltando completamente a este ofício que é a minha paixão e que realmente é uma das coisas que acho que consigo fazer melhor e com mais prazer na vida. Quanto mais eu estudava sobre corpo, sobre musicoterapia, sobre educação, mas eu me sentia pronta para encarar a mesma profissão que eu já tinha.

Então cá estou de volta 100%. Após este retorno, passei um tempo na minha própria salinha que arrumei toda, crente de que seria meu pouso durante bastante tempo, mas durou pouco pois logo veio a pandemia. Agora estou em modo online, tentando ver o lado bom deste ensino remoto que nunca foi um desejo meu, mas que proporciona surpreendentes processos. Hoje em dia tendo também a mestra Joana Mariz como inspiração e fonte de novos conhecimentos sobre velhos assuntos, carrego comigo todos os mestres que tive: Sonia Dumond, Angela Herz, Carlos Aguirre. Sim, porque, além de professora e cantora, sou eterna aluna.

Nesta pandemia, sem ter ficado parada nenhuma semana graças a eles (obrigada, Regina, que me convenceu a dar aulas online!), sou grata a cada um dos meus alunos que confia em mim e compartilha essas horas musicais, me ensinando tanto ao longo desses anos. Permitindo com que eu participe ativamente de universos particulares tão ricos quanto seus repertórios, suas histórias, suas emoções, suas vozes. Esses alunos que me ensinam novas canções todo dia ou me mostram novos sentidos para velhas canções me fazem também criar sempre novas conexões com a tão familiar MPB e também com estilos dos quais não sou tão íntima, e isso, claro, alimenta o repertório da cantora que está sempre por ali, ouvindo tudo.

Sigo assim, com a professora e a cantora que moram em mim de mãos dadas pela vida afora, certas de que fizeram, juntas, a escolha certa, que é viver de música e para a música, todos os dias. Sem nunca estar sozinha.


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