• Maíra Martins

Diana

Minha história com Diana começou muitos anos antes dela saber. Andando pelo Largo do Machado, eu e Augusto descobrimos uma lojinha cheia de roupas interessantes que, se não me engano, tinha aberto há pouco tempo: Vice Versa. Rapidamente o nome mudou para Diversa por alguma questão burocrática. Fiquei apaixonada pelas cores, pelos tecidos, pelos modelitos. Virei cliente e usava tanto suas roupas que as pessoas diziam que eu devia ter apoio da loja. Um dia acabei conseguindo. Quando o Ordinarius ia fazer a primeira viagem internacional, pra Alemanha, lembrei da loja para o nosso figurino. Achei a dona, Diana, no Facebook, e mandei mensagem, na cara dura mesmo. Mandei um clipe nosso, contei a história do grupo e da viagem e ela topou. Marcou um encontro no ateliê dela, que era na mesma galeria da loja, mas em outro andar. Quem me recebeu foi sua mãe, Denise, que, com toda a paciência do mundo, mostrou diversos modelos e esperou as três cantoras chegarem a um consenso de que roupa ia bem com qual, e de quem se sentia bem assim ou assado. Assim eram as escolhas de figurino do grupo: complexas e demoradas. Variavam de acordo com o gosto pessoal de cada uma, com os corpos, com a unidade entre as três mulheres e também com os homens. E as mudanças de formação? Haja paciência e dedicação. Diana e Denise se acostumaram, vestiram a camisa e nos vestiram por muitos anos. Os vestidos de bolinhas, a identidade visual feminina característica durante algum tempo, veio dali, assim como muitas das cores e modelitos que viraram marca registrada do grupo. Diana se tornou uma figura presente na elaboração de cada projeto, nos acompanhou em clipes, passou roupa pra gente em shows. Uma pessoa linda, generosa, cheia de vida e criatividade. Esta era Diana. Lembro que no último figurino que fez com o Ordinarius, o vestido que eu usava - ela avisou - era peça única e não poderia ser deixado com a gente depois, pois precisaria ser vendido. Eu disse que o vestido já era meu e perguntei se eu poderia comprar, e Diana deixou com a condição de que eu o emprestasse para ela, para ir a um casamento, o que aconteceria dentro de algumas semanas. O dia em que veio aqui na portaria rapidamente, de táxi, pra me devolver o vestido, foi a última vez que a vi. Pouco tempo depois recebo uma ligação com a notícia: Diana estava em coma. Já há muitos anos sofrendo com diversos problemas de saúde, desta vez a coisa estava muito séria. Passou pouco tempo na UTI. Era final de dezembro, natal chegando, quando Diana se foi. Aquela tristeza de ver alguém tão jovem indo embora é algo que marca a gente, e a história dela com certeza me marcou, como também sua despedida, a mais linda que já vi. Lembro que eu estava na casa do meu pai, em Niterói, mas passei em casa antes do velório, pois precisava pegar um vestido feito por ela. Escolhi um de bolinhas. Nunca fez parte de nenhum figurino pois não encaixava com nada, mas eu amava. Ao chegar ao cemitério, uma surpresa linda e emocionante: quase todas as mulheres presentes usavam roupas de bolinhas feitas por ela. Não sei se houve uma comunicação a respeito. Se houve, não fiquei sabendo. Mas eu estava no figurino certo, prestando uma homenagem silenciosa a ela, junto com a mulherada presente. Mas a homenagem não seria só a silenciosa, pois, assim que nos viu, sua mãe pediu: será que vocês poderiam cantar alguma coisa pra ela? Diana amava “Ladeira da Preguiça''! E assim nossa homenagem musical inusitada se deu: de frente para o caixão, aquele bando de amigos e família em volta, bolinhas e cores por todos os lados, Augusto pegou o violão emprestado com um rapaz que tocava ali sem parar e fizemos o “Ladeira da Preguiça” mais emocionante que já houve. Ali não se chorava a morte, apenas. Ali se celebrava a vida, a alegria, se agradecia aos anos passados com ela. Gilberto Gil nunca imaginou e eu também não, mas aquela música fez sentido naquele momento. E seu caixão foi carregado alguns minutos depois, para a cremação, enquanto todos os presentes o acompanhavam cantando marchinhas antigas, como num bloco de carnaval daqueles que ela tanto amava.


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