• Maíra Martins

Doce de Pimenta

“Sem as vozes que ele ouviu Quando era aprendiz Como pode sua voz ser uma Elis?”

(A Feminina Voz do Cantor, Milton Nascimento e Fernando Brant)

Eu descobri que Elis tinha morrido quando tinha sete anos, e ela havia nos deixado cinco anos antes. Nunca ninguém tinha se tocado de me contar que aquela cantora que eu tanto gostava, que eu tanto ouvia e imitava não estava mais entre nós. Um dia minha minha mãe ia contar a história de como foi que ela soube da notícia e começou a frase: “no dia em que Elis morreu…” Como assim, Elis morreu?

Para mim, Elis não morreu, e esta é a beleza da arte que se deixa registrada para ser degustada pelas próximas gerações. Não só não morreu, como como está cantando cada vez melhor, como bem disse Fernanda Montenegro recentemente em uma entrevista. A forma com que interpretava as letras, colocava a voz, aquela proximidade com a voz falada, aquela emoção à flor da pele, aquela afinação, aquele faro pra escolher repertório foram e são referências que trago comigo mesmo que não queira, mesmo que tente fugir, e olha que durante algum tempo até tentei.

Em uma das primeiras apresentações em público que fiz aos quinze anos, com meu pai, no saguão do CEAT, a música era “Como Nossos Pais”, de Belchior. Lembro da emoção da plateia, especialmente dos adultos presentes. Lembro de como aquilo batia neles e de como eu não dava tanta importância ao que estava cantando, era só uma música bonita que eu sabia. Mais tarde fui entender o peso daquela letra, a importância daquele repertório em níveis mais profundos, e isso me fez gostar ainda mais deste universo, ao mesmo tempo em que me fez querer me afastar dele e me afastar também daquela referência vocal que eu comecei imitando.

Aos vinte anos, quando comecei a cantar profissionalmente, tinha horror de apresentar em público qualquer música que Elis tivesse gravado. E, mais do que isso, achava pavoroso que alguns cantores se aventurassem a gravar certas músicas que simplesmente já haviam ganhado sua versão final e não deveriam mais ser tocadas. Mexer com aquelas músicas seria sempre gravá-las de uma forma pior do que já havia sido feito e eu simplesmente não entendia o porquê. “Pra ouvir esta música, melhor ouvir a gravação da Elis, sempre”, era o que eu pensava.

Já chegando perto dos 40 anos, fui convidada por uma amiga aluna a participar de seu show e a proposta foi dela: como nós duas somos muito fãs de Elis, faríamos uma noite dedicada a ela e sua filha, Maria Rita. Bia Vaz, esta cantora/arquiteta arretada que adora inventar moda, cantaria apenas músicas cantadas pela filha e eu apenas as cantadas pela mãe, o que era uma brincadeira com nossas gerações trocadas, já que ela tem idade pra ser minha mãe. Topei o convite.

Foi preciso viver mais tempo e me sentir uma cantora mais segura da minha individualidade pra entender que valia a pena me jogar naquele repertório que fazia tão parte de mim. Aquela seleção de Miltons e Gils, e Blancs e Boscos e tantos outros são parte da minha construção como artista para além da referência de Elis como cantora. Senti na pele, senti na voz: as músicas eram livres e aquele repertório merecia, sim, seguir vivo, sendo reinventado, rearranjado, cantado por outras vozes, em outros tempos. Perdi naquele momento o preconceito que eu tinha com relação a mexer com este repertório e fui vendo, também, que, se eu desejasse, teria o que colocar de meu naquelas músicas.

Assim, como um desafio autoproclamado, como uma brincadeira e como um presente, veio a ideia do Doce de Pimenta. Eu estava num momento em que não dava muita ênfase à carreira solo (como estou até hoje), mas sentia falta de me jogar musicalmente sem as amarras de arranjos de grupo vocal ou mesmo de banda. Aproveitei que meu parceiro de muitos anos Gabriel Geszti estava no Brasil dando sopa, e convidei-o para esta empreitada.

Seria desde o início algo pontual, até porque sabia que Gabriel programava sua volta para a Índia. Eu escolheria cinco músicas junto com ele, ensaiaria poucas vezes e iríamos pro estúdio. Chamaria também Ana Rezende pra registrar este momento em vídeo e era só. Sem muita pretensão, sem muito alarde, só pelo prazer de cantar com aquele piano sensível e espiritualizado do Gabriel algumas músicas que faziam parte da minha construção como cantora.

Engraçada foi a dificuldade que tive com a escolha de repertório. Eram tantas músicas possíveis de serem escolhidas, que não tinha a menor ideia do que selecionar. Acho que se eu escolhesse as músicas na semana seguinte já poderiam ser outras cinco. Mas lá fomos nós, sem pensar muito. Devem ter sido uns dois ou três ensaios e o estúdio. Nosso Doce de Pimenta já existia, assim, simples, eternizado em gravações de áudio e vídeo.

O EP foi lançado com um show com Gabriel no Beco das Garrafas levando um pouco da energia da história daquela mulher que tanto me inspira desde sempre, marcado pelo super parceiro Alexandre Ramos. Alguns meses depois um repeteco, no mesmo local, com outro músico, desta vez o não menos sensacional André Siqueira no violão. Gabriel já tinha deixado o Brasil mais uma vez.

O álbum nas plataformas digitais, os vídeos no YouTube: nosso "Doce de Pimenta" foi realizado e tenho certeza que será outras vezes no futuro pois as misturas possíveis a partir dos ingredientes-canções eternizados por ela são infinitas.

Aceitei meu próprio desafio e me dei este presente musical. Vi que é possível interpretar um repertório já tão consolidado com uma referência específica e transformá-lo em algo verdadeiramente seu. Sem imitações, mas com a memória do coração, pois é assim que se aprende a cantar, não existe outro jeito. Vi que carrego Elis comigo, mas não só ela. Carrego Caetano, Gil, Gal, Betânia, Lenine, Billie, Ella, Bobby, carrego tantas vozes. Carrego meus pais, Augusto, Kris e tantos amigos com os quais canto e já cantei.

Confirmei mais uma vez que a voz de cada um é também a voz de todos os que foram ouvidos antes. Os ingredientes são muitos e as receitas infinitas, e esta é a graça da coisa toda. As pessoas e vozes são únicas e as músicas são para serem cantadas sem preconceitos, pois são livres. E algumas são eternas.


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