• Maíra Martins

Existe uma técnica de canto popular?

Afinal, um cantor popular precisa de estudo técnico para cantar bem? Existe uma técnica voltada ao canto popular ou o verdadeiro estudo é o do canto erudito? Para começar a tratar deste assunto bastante polêmico, vou falar um pouquinho sobre minha trajetória.


Comecei estudando canto lírico por alguns anos e foi uma experiência que me fez descobrir na minha voz possibilidades que eu nem sabia que tinha. Mas, ao migrar para o estudo do canto popular descobri outras possibilidades que eu nem sabia que tinha e muito do que eu havia aprendido antes teve que ser adaptado ou mesmo deixado de lado para que outra forma de fazer se tornasse automática pra mim, no momento de cantar. Por conta do repertório que eu ouvia em casa e já cantava, esta reconstrução técnica e estética realizada durante as aulas de canto popular foi bastante bem vinda e fez sentido.

Apesar de ter ouvido muitos relatos parecidos com o meu, de pessoas que tiveram que modificar seu jeito de cantar aprendido no canto lírico para cantar bem o repertório popular, percebo que no meio do canto ainda existe um preconceito e mesmo um desconhecimento a respeito do que seria, afinal, o estudo do Canto Popular. Já existem pesquisadores tratando das especificidades deste fazer artístico, mas o mais comum é acharmos textos e vídeos, teoricamente sobre canto popular, mas que tratam de aspectos da técnica vocal endereçados ao canto erudito e, se muito, adaptados ao repertório popular, muitas vezes demonstrando pouca intimidade com este universo.


Devo começar conceituando o que entendo por "técnica". Acredito que técnica, esta palavra, entendida como modo de fazer alguma coisa, é algo inerente a qualquer atividade. Se você sabe realizar uma atividade, se ela é bem feita, de forma eficaz, é porque você domina uma técnica. Entender que uma linguagem artística necessita de domínio técnico enquanto outra não é desvalorizar uma em detrimento da outra. É hierarquizar saberes, culturas, linguagens.


É claro que essa diferenciação, no caso do canto, não se dá a toa. A música erudita, por conta de sua raiz europeia, carrega bastante história e uma história documentada, com pés fincados na formalização já há algum tempo. É, portanto, uma linguagem artística já bastante reconhecida e valorizada. Ao compararmos com a jovem Música Popular Brasileira fica claro que estamos tratando não somente de uma linguagem um tanto quanto recente, mas que carrega raízes diversas, e algumas delas em culturas, que, apesar de muito antigas, foram pouco documentadas. Não vamos confundir e achar que os índios têm menos história do que os portugueses, quando sabemos que na realidade a grande diferença é o acesso que se tem ou que não se tem a determinada história por conta da existência ou da não existência de registros sobre ela.


Pois bem, podemos dizer que a Música Popular Brasileira, tal qual a reconhecemos, é bastante recente. Apesar de sua recente história acredito que nossa rica Música Popular é atualmente uma das mais importantes manifestações artísticas do país, sendo seu canto reconhecido, valorizado e até imitado pelo mundo afora. Merece, portanto, que nos debrucemos sobre ele para reconhecê-lo, valorizá-lo, e entender que deve ser, sim, objeto de estudo.

Voltando a questão da técnica: Dona Ivone Lara, grande sambista brasileira, compunha e cantava lindamente, dentro do estilo desejado por ela, que era o samba. As chances de uma pessoa que gosta de samba apreciar o jeito dela de cantar são enormes. Se você pedir a uma grande soprano erudita para entoar “Alguém me avisou”, no entanto, apesar de poder ficar até interessante, afinado, mas provavelmente, para os ouvidos amantes vai resultar em uma execução deslocada, e, por que não dizer, sem técnica para os ouvidos amantes do samba.


O que me leva a seguinte constatação: um cantor com técnica é aquele que executa aquilo que deseja executar de forma saudável e eficaz. Se você conseguir fazer o que quer de forma automatizada, ou seja, sempre precisar pensar muito, bingo! No final das contas, é tudo uma questão de desejo, de objetivo, e de automatização, no corpo, de caminhos e padrões. E afora questões como afinação, boa respiração e saúde vocal, que costumam ser consenso entre cantores de todos os estilos, outros aspectos como timbre, divisão rítmica e uso de volume, por exemplo, diferem totalmente quando estamos tratando de diferentes repertórios e estilos em canto.


Até mesmo dividir apenas em dois “estilos”, como canto erudito e canto popular, não abarca, nem de longe, a diversidade de desejos que se pode acalentar ao iniciar um processo de estudo.

Sendo um cantor erudito, ele pode se especializar em Música de Câmara, com uma voz sem uso de vibrato e com volume moderado, já que conta com poucos instrumentos, ao contrário do cantor de ópera, que faz uso do vibrato como recurso e, acusticamente, tem uma orquestra para vencer. No caso do cantor popular, ele pode se inspirar nos cantores sertanejos, por exemplo, e desejar uma voz com vibrato e um uso de grande intensidade. Uma intensidade muito maior do que aquele cantor que deseja cantar a la João Gilberto e acha lindo cantar bem baixinho com um banquinho e um violão. Acredito que um mesmo cantor pode, com bom domínio da sua voz, transitar entre estilos, mas somente saberá ser flexível o suficiente para convencer seus ouvintes se realmente conhecer o universo visitado e souber reproduzir, do seu jeito, aspectos que traduzem a sua estética. Desta forma ele terá uma boa técnica dentro da linguagem visitada.


Para os que dizem que “o instrumento é o mesmo”, respondo que concordo e discordo ao mesmo tempo. Dividindo o essencial do ato de cantar em 3 partes (sistema respiratório, aparelho fonador e uso dos filtros, ou ressonâncias) os dois primeiros podem ser entendidos como “o mesmo instrumento”. Respirar bem e dominar as musculaturas laríngeas realmente é algo bom para qualquer cantor e pode ser adaptado de acordo com a estética desejada. No entanto, o som que ouvimos não é aquele produzido pelas pregas vocais e sim o resultado do fluxo deste ar, já transformado em som, reverberado por todo o caminho entre as pregas vocais, que são a fonte geradora do som e as cavidades de propagação - boca e nariz. No meio deste caminho existe um percurso composto pelas vias aéreas, que é onde os ressonadores estão. Estes podem ser modificados de acordo com alterações nos órgãos articuladores. Aqueles que são visíveis, como lábios e ponta da língua, e invisíveis, como faringe, laringe e véu palatino. Isso quer dizer que um mesmo cantor, sem mudar em nada sua anatomia, mas modificando o uso que faz dela, pode realizar diversas sonoridades e isso nada tem a ver com frequência - essas alterações podem ser feitas em uma mesma nota, e ocorrerão principalmente a partir uso das cavidades de ressonância.

Além da questão timbrística, que claramente será bastante diferente de acordo com o estilo, o desejo técnico pode modificar também fraseados, durações de nota, gestos vocais como portamentos e finalizações de frases, entre outros aspectos. Acredito, então, no final das contas, que uma técnica que melhor atenda a nossos desejos de realização artística é aquela que mais funciona e, por conta disso, é desejável que tenhamos a possibilidade de um estudo técnico voltado especificamente para o Canto Popular pois desta forma estaremos valorizando e aprimorando esta linguagem que tanto representa a nossa rica cultura brasileira.

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