• Maíra Martins

O que é o que é - decifrando conceitos musicais e vocais na aula de canto

O aluno, ao me ligar pra marcar um horário, já avisa que é “desafinado”. Me preparo para o pior e ao chegar na minha frente ele na verdade tem uma afinação precisa e segura, na medida do possível para quem não tem o hábito de cantar, mas apresenta um timbre levemente anasalado. Outro me diz que é “completamente sem ritmo” e, na hora de cantar, o ritmo é regular, enquanto a afinação vacila aqui e ali. E por aí vai: “não tenho voz”, tenho “voz feia”, “não sei respirar” - falas que carregam noções musicais e vocais confusas e muitas vezes equivocadas a respeito de si mesmo (e dos outros, provavelmente).


Vejo, nesses anos como professora e também como cantora, duas grandes questões a respeito de conceitos musicais e vocais: a primeira é que para a maior parte das pessoas os parâmetros musicais (altura, timbre, intensidade e duração) são noções que se confundem, se misturam. O timbre vira altura, a altura vira ritmo e por aí vai. São muitas as pessoas que juntam os aspectos musicais em um grande e misterioso pacotão no qual qualquer coisa é qualquer coisa, dependendo de como a pessoa “sente” o que está ouvindo ou fazendo e do vocabulário que ela tem (ou imagina ter). E muitos falam com uma certeza desconcertante frases cujo sentido precisa ser decifrado pelo ouvinte, e isso não é falta de “ouvido” ou aptidão musical: é resultado de uma construção repleta de confusões e preconceitos passados geração a geração sem serem questionados ou investigados a fundo. A aluna que me dá como exemplo a execução de uma nota (aleatória e desacompanhada de instrumento) como exemplo de sua “desafinação” com certeza não entendeu o conceito de afinação, que é sempre baseado na relação. Você afina ou desafina em relação a alguma coisa - uma nota cantada sozinha teria que estar acompanhada ao piano, por exemplo, para que fosse possível que eu tivesse alguma ideia sobre a afinação desta aluna.


A segunda questão diz respeito especificamente ao mistério que é cantar. Como nos referir, de forma clara, ao funcionamento “secreto” de um instrumento invisível? Um instrumento que anda, come, chora e sorri, e que traz, no seu corpo, memórias vivas e complexas de um ser humano sempre em construção? E mais: como fazer para que o aluno, além de entender conceitualmente o que está sendo feito ou solicitado, consiga de fato realizar o que deseja? Lembremos que saber dizer nomes de músculos envolvidos na fonação não faz de ninguém um bom cantor, mas associar o ato de cantar a musculaturas de forma equivocadas pode fazer um cantor, no mínimo, com pouca saúde vocal.


Mas voltemos ao entendimento em relação a conceitos dentro do canto e os desastres oriundos da falta de discernimento entre esses conceitos: a pessoa que ouve de alguém em quem confia que não “tem voz para cantar” pode carregar este registro por toda a vida. Esta fala, além de prejudicial a qualquer processo de educação vocal é também, salvo raras exceções que envolvem patologias específicas, totalmente equivocada. Naquelas situações em que há patologias envolvidas a fala também é equivocada, diga-se de passagem, já que demonstra falta de cuidado e de clareza com a informação dita. Existem pessoas com mais facilidade ou dificuldade em falar e cantar com volume alto, por exemplo, mas com certeza conseguir volume é algo que pode ser trabalhado através da respiração e da prática de cantar. Nem todo mundo, no entanto, vai cantar igual ao Tim Maia, isso é certo. Mas será que é necessário cantar IGUAL a alguém? O auto-conhecimento vocal, na minha opinião, deve estar sempre focado no que a própria pessoa é capaz de realizar, de transformar, de adquirir. Devemos parar de perder tempo nos comparando com outras pessoas e buscar as nossas próprias potencialidades. O que não deve ser confundido com estagnação. É interessante, sim, pesquisar e brincar com novas possibilidades de timbre, de volume, de fraseado, mas sempre buscando a nossa verdade expressiva e respeitando nossa saúde. Não se engane, isso dá trabalho, viu?


Saber que o ato de cantar envolve musculaturas abdominais, intercostais, laríngeas, faciais e outras tantas e que o equilíbrio entre elas nos leva a uma execução eficaz e saudável é muito importante, mas só saber também não adianta - é necessário experimentar no corpo como todas essas partes se conectam, se ajudam ou se atrapalham para conectar o saber com o fazer. Ter discernimento para entender os mecanismos e saber reproduzir os padrões desejados envolve trabalho, e nem sempre o racional nos ajuda a resolver questões que porventura apareçam. Muitas vezes não pensar e deixar o canto fluir vai funcionar melhor. Depende da pessoa, do momento, da questão.


Mas isso não quer dizer que a existência de um vocabulário no qual possamos nos comunicar não seja importante. A compreensão e o discernimento entre noções musicais básicas, assim como a consciência a respeito da anatomia e da fisiologia da voz pode nos ajudar, sim, a encontrar soluções para questões que talvez apenas de forma subjetiva não tenhamos recursos para lidar. E se não houver um vocabulário em comum que torne possível a comunicação, há um grande perigo de nos isolarmos em nossas experiências ou, até pior, de termos pobres discussões nas quais cada um entende o que quer.


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