• Maíra Martins

O tal do "público"

Minha mãe sempre contava do dia em que conheceu o tal do "público". A história era mais ou menos assim: ela fazia recitais sempre neste mesmo lugar, o Botanic, um bar e restaurante no Jardim Botânico que foi palco de muitos encontros de poetas nos anos 80. Como não havia camarim, ela precisava passar pela plateia para entrar em cena. Neste caminho, ela contava, sempre via seus amigos, familiares, conhecidos e um ou outro rosto desconhecido. Até que um dia, após ter seu texto “Amizade Dolorida” publicado no saudoso Jornal do Brasil, a plateia ficou diferente. Pela primeira vez ela se encaminhou ao palco e, incrédula, passou direto até chegar ao seu destino, sem cumprimentos, dois beijinhos ou acenos pois simplesmente NÃO CONHECIA NINGUÉM. Eu ouvia esta história sem dar muita trela até o dia em que aconteceu comigo.


Meu primeiro contato com o “público” veio depois de muitos anos, como normalmente acontece, e com o Ordinarius, grupo do qual faço parte desde o fim de 2007. O projeto do Ordinarius começou totalmente despretensioso e era movido apenas pela nossa vontade de cantar e de estar junto. Os primeiros anos foram assim: muitos ensaios e poucas apresentações recheadas de famílias e amigos e amigos dos amigos ou amigos das famílias. Uma delícia e um laboratório essencial para o que veio depois.


Acontece que desde sempre tivemos esta vontade de juntar a música à alguma imagem e foi isso que acabou nos levando além. Augusto diz que pensa em cinema escrevendo alguns arranjos e foi natural pra nós começar a inventar vídeos para os arranjos que íamos gravando. Muita criatividade e pouco dinheiro, sempre. Muitas parcerias importantes também.


O primeiro clipe mais produzido foi filmado uns quatro anos depois do início do grupo, com uma equipe de estudantes de cinema que teve a ideia de um roteiro super fofo. Depois de umas três tentativas de marcação de data onde choveu todas as vezes, finalmente conseguimos filmar. A música era “Ladeira da Preguiça” e o cenário, a vila onde morava um dos integrantes. Íamos experimentando as propostas que eles nos faziam como uma brincadeira. Deu super certo e “bombou” no nosso canal de YouTube, que até então só continha uns vídeo-convites toscos e engraçados que gravávamos sempre que queríamos divulgar um show - desta vez, mais de mil pessoas tinham visto nossa produção super caseira e era um orgulho danado ver o vídeo chegando nas pessoas. Lucas Calmon, o diretor, e Isadora Boshiroli, a editora, fizeram muitos outros vídeos com a gente ao longo dos anos e são parceiros que amamos ter.


Por causa deste clipe veio o pessoal da Cover Flow apresenta. Bruno Tavares e as duas Natálias - Ferreira e Pinheiro - viram o clipe de “Ladeira da Preguiça” e propuseram que participássemos do projeto deles gravando um cover de uma boy band dos anos 90 e mais uma outra música que escolhêssemos. Assim vieram os próximos clipes, de “As long as you love me” e “Disseram que eu voltei americanizada”, gravados num mesmo dia em uma casa na Ilha do Governador. Chegamos por volta das 7h da manhã pra nos arrumar e filmar tendo como cenário uma parede super decorada por Lilly Kressler, da loja Le Modiste e dirigida pelo Lucas Ratton, da Nottar Filmes. Um projeto totalmente colaborativo que rendeu resultados inacreditáveis pra gente, incluindo uma postagem dos Backstreet Boys que fez com que nosso cover viralizasse por aí - o primeiro grande sucesso nosso fora do nosso círculo e fora, também, do repertório que costumamos cantar. Virou trilha sonora de novela um pouco depois.


Tomamos gosto pela coisa e vimos que esta era uma possibilidade maravilhosa - e a única, na verdade - de divulgar nosso trabalho. Seguimos fazendo vídeos, inventando formas de transformar nossa música em imagem, sempre tendo a criatividade como motor e arranjando maneiras de viabilizar as produções. São muitas histórias, muita produção e muito suor. Pouco glamour.


Por conta dos vídeos que havíamos produzido até então, que já contavam a marca de algumas dezenas naquele momento, chegou o dia em que conheci nosso “público”.


Era o primeiro dia de um final de semana que faríamos no SESC Copacabana. Chegamos mais cedo ao teatro pois aproveitamos para gravar mais um clipe. A ideia era simples: nós sentados em semicírculo, com uma luz em cima e duas câmeras: uma pegando um ângulo mais aberto e outra dando closes. Gravamos as câmeras em takes diferentes. A música era linda, nós nos esforçaríamos para estar também e era isso. Nos inspiramos em um vídeo de um grupo cubano, “Sexto Sentido”. Como não nos parecemos em nada com o grupo e a música seria bem diferente, nos sentimos à vontade para usar a inspiração do clipe na cara dura, e talvez se eu não te contasse você não perceberia vendo os dois. Enfim, roubar com arte também faz parte. O importante é variar a referência pra não deixar a coisa estranha, fica a dica.


Nosso câmera foi Mateus Xavier, o percussionista que está em todos os projetos do grupo desde o início e que somente alguns anos depois seria alçado à categoria de membro integrante. Naquela época era músico - e câmera - contratado. Infelizmente ele não tocou nesta gravação, que ganhou uma das maiores repercussões de nossa história e acabou sendo responsável por nos levar para uma turnê nos Estados Unidos alguns anos depois.


Chegamos ao teatro no meio da tarde. Nos maquiamos, colocamos o figurino especial que contava com três macacões para as meninas, emprestados por nossa apoiadora Diana Estevez, da loja Diversa. Nos sentaríamos no chão e precisávamos de roupas com que pudéssemos ficar sentadas à vontade sem medo de mostrar alguma sensualidade descabida naquela clássica “Rosa” de Pixinguinha e Otávio de Souza. Gravamos o clipe em meia hora, dublando a música algumas vezes e foi só.


Depois foi o tempo de se arrumar, agora sim com o figurino do show, e esperar o público entrar. Sim, ele, o “público”. Foi aí que o conheci. Quando a luz permitia ver as pessoas na plateia me dei conta de que não havia nenhum rosto conhecido e esta foi uma sensação que jamais esqueci. Lembrei da história da minha mãe. Olhava para cada rosto tentando imaginar como aquela pessoa foi parar ali. Qual seria a história dela com a gente? Com que música teria nos conhecido? A sensação era de que todos cantavam junto o repertório inteiro, sendo que algumas músicas não eram conhecidas, ou seja, era nítido que elas tinham ouvido as nossas gravações e que nossa arte tinha chegado a elas de alguma forma. Agora elas eram nosso “público”. Nossas famílias e amigos seguiriam frequentando os shows e nos deixando muito felizes com isso, mas agora não dependíamos mais deles para encher nossa plateia pois estávamos chegando nas pessoas que não nos conheciam. A passos lentos, mas chegando. Valorizando cada pequena conquista. Não poderíamos imaginar que muitas destas pessoas, ao longo dos anos, fossem fazendo o movimento contráriodo esperado , e se tornando amigas e até família. Mas esta é outra história.



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