• Maíra Martins

Pérolas aos Poucos

O show de lançamento na Baden Powell rendeu algum boca a boca e convites para alguns dos melhores shows da minha vida, um deles na saudosa Modern Sound, uma loja em Copacabana que foi responsável por muitas alegrias da minha adolescência. Quem viu, sabe do que estou falando. Era só lá que você achava aquele repertório diferentão, discos raros, de países variados, um oásis para os curiosos. E ainda tinha show da Andrea Dutra aos sábados e outras maravilhas naquele palquinho onde tive o prazer de cantar. A banda estava afiada e eu me sentia super à vontade com o repertório deste show que já repetíamos há cerca de três anos. Mas, como boa ariana, não via a hora de cantar algo novo, mudar de ares, de repertório, de projeto. Mesmo assim, segui amadurecendo aquele enquanto pude tendo em mente o que aprendi com minha mestra Angela Herz: a busca pelo frescor da interpretação, pelo domínio da energia da plateia, por trazer sentido a tudo que se canta, sempre.

Outra coisa que surgiu com este show de lançamento foi um empresário querendo trabalhar comigo. Que maravilha, mas o que seria isso? Não cheguei a saber pois não durou muito, mas sei que era um cara legal e bem intencionado que parecia não ter um plano muito definido. Eu, que nunca tive o sonho do empresário próprio, segui assim meio de pé atrás, esperando pra ver o que ia rolar.

Não lembro muito do que rolou, a única memória que guardo é a seguinte: ele veio com a ideia de marcar um show numa livraria que tinha um palco super legal, em São Conrado. Pra quem não é do Rio, é o seguinte: São Conrado é longe, bem longe para os cariocas da zona sul. É perto da Barra, que com certeza já é um outro estado, ainda mais naquela época em que o metrô não ia até lá. O transporte da zona sul até lá era difícil e meu público, eu sabia, era basicamente da zona sul - amigos, amigos de amigos e por aí vai. Não saía muito disso não. Eu hesitei. Ele me disse “precisamos quebrar esses paradigmas”. Topei.

Marcamos a data pra algumas semanas a frente. Nesta época, pessoa da geração Y, a gente divulgava com filipeta - é como se dizia flyer em português antigamente, e era feita de papel. A gente mandava imprimir na gráfica ou imprimia em casa mesmo e tirava xerox, ficava cheio daqueles papeizinhos na bolsa e ia deixando em lugares onde nosso público poderia frequentar, entregando de mão em mão também, enfim, se virando. Além disso usávamos a internet (sim, ela já existia), mas somente usando nossa mala-direta (era como se dizia mailing em português antigamente). Adivinha onde deixei minhas filipetas? Em Copacabana, na Urca, em Botafogo, no Centro, os lugares que eu frequentava. Adivinha quem recebeu minha mala-direta? Os moradores desses lugares em sua maioria. Adivinha quantas pessoas compareceram ao show?

O resultado foi o seguinte: tinha mais gente em cima do palco do que embaixo dele e a banda não era grande. Cinco pessoas contando comigo. Poderia ser considerado o maior fracasso da minha carreira, mas eu colocaria na frente um show corporativo que me vem à mente, realizado alguns anos depois, no qual as centenas de pessoas na plateia estavam mais interessadas num sorteio ou sei lá o quê que acontecia ao mesmo tempo, e, do nada, no meio das músicas, ouvíamos gritos de alegria que não eram pra gente. Deprê total. E o cachê era bom. Ou então aquela apresentação no Rock in Rio durante o intervalo dos shows principais no qual cantávamos ao mesmo tempo em que as propagandas - em volume altíssimo - passavam no telão. Enfim, é páreo duro.

Naquele show eu contei três pessoas na plateia. Foi fácil contar, rsrs… Só pensava que eu não poderia perder o sentido do que estava fazendo ali. Não podia me deixar dominar pela decepção de ter um público pequeno. A plateia era de três pessoas super atentas que não piscavam durante todo o show e isso naquele momento me bastou. Mesmo. Todo músico deveria se apresentar para três pessoas algumas vezes na vida pra testar suas motivações. Se elas forem for fama, sucesso, ganha muitos elogios, babou. Se forem a música, a sua verdade, te garanto que se mantém intactas. Nesta noite fizemos música, nos divertimos e nos emocionamos no palco. Não sei se por constrangimento, as palmas foram animadas e inesquecíveis. Assim como inesquecível foi também a música de abertura, com a gente já experimentando o que seria o início do próximo projeto (ariana não aguenta), uma parceria de José Miguel Wisnik e Paulo Neves, que diz: “Eu jogo pérolas aos poucos, ao mar. Eu quero ver a onde se quebrar. Eu jogo pérolas pro céu. Pra quem? Pra você, pra ninguém. Que vão cair na lama de onde vem.”



3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Diana

maíra martins©2020

desenvolvido por tatiana agra