• Maíra Martins

Receita de Fracasso

Dizem que a receita de sucesso não existe, mas a receita de fracasso é fácil: querer agradar a todos. Lembro de aprender isso rapidamente depois do show de lançamento do meu primeiro CD, Processo de Feitura, e explico aqui o porquê, com um pequeno textão:

O show foi o resultado de alguns anos de atividade deste projeto que produzi junto com meu marido Augusto Ordine a partir de uma seleção de músicas de compositores amigos, muitas inéditas e outras já gravadas mas desconhecidas do grande público. O Processo de Feitura teve como mote - acho que nunca contei isso pra ninguém - um comentário que ouvi durante a apresentação de um grupo que tocava marchinhas no carnaval carioca. Um senhor virou para o lado e comentou com alguém: “Não se faz mais música boa como antigamente, está vendo?”

Aquela frase me incomodou demais. Amo marchinhas, sou apaixonada pela música da Era de Ouro do rádio, pela Bossa Nova que veio depois, por aquela MPB clássica e já bem batida de Caetano, Gil, Chico e Edu, mas eu tinha (e tenho) a sorte de estar sempre rodeada de compositores incríveis que, eu sabia, estavam naquele momento compondo novidades deliciosas, fortes, que não deviam nada àquelas composições já consagradas. O que faltava (e falta, infelizmente) é o grande público saber da existência delas.

Tendo isso em mente quis fazer este projeto a partir do garimpo de algumas dessas composições. Que fique claro que o objetivo nunca foi bombar nas rádios (teria sido considerado um fracasso, rsrs), e assim como já era esperado, nunca saiu muito daquele circuito independente de pequeno porte do Rio de Janeiro, tendo participado de um ou outro festival e alguns shows em SESCs, mas me deu alegrias imensas e fez com que algumas pessoas conhecessem as músicas de Edu Prestes, de Raphael Gemal, de Pedro Moraes. Meu objetivo foi alcançado.

A maior alegria era poder subir ao palco com aquela banda: Gabriel Gezsti, meu amigo de escola, e seu piano espiritualizado - um amor musical que carrego pra sempre. Leandrinho Vasques, parceiro do grupo vocal Cinco a Seco na época, era o baixista preciso que simplesmente estava por dentro do que eu estava fazendo, sempre. Parceria total. Eu errava, ele errava junto e assim tudo era acerto. Na música às vezes essas coisas acontecem. E por último, Marcus Nunes, o Marquito, que era responsável por um suingue único e sutil que sempre me encantaram e que cedia sua casa para os ensaios, o maior laboratório de cantora que eu tinha tido até então. Esta era a banda que dava vida aos primeiros arranjos escritos para formação instrumental pelo maridão Augusto Ordine.

O show foi marcado por um professor meu de faculdade (o saudoso Rick) com onze meses de antecedência no Teatro Baden Powell, o que na época representava um sonho pra mim. Um teatro de verdade, com espaço pra cenário, luz, a coisa toda. Antes eu havia cantado somente em restaurantes, centros culturais e teatros muito pequenos. A antecedência foi tanta que deu tempo de Gabriel ser convidado para uma das muitas viagens internacionais que faria a partir de então e, às vésperas da data chegar, Paulo Malaguti Pauleira chegou para o substituir e reforçar a sensação de que eu estava muito bem acompanhada, mesmo com os imprevistos. Pauleira é um dos poucos pianistas que conheço que respira a música junto com o cantor, que transforma cada canção em uma espécie de oração. Além de ser o melhor contador de piadas de que já tive notícia - o que sempre conta pontos, claro. O show contou também com a participação de Marcelo Rezende colocando seu molho na guitarra e as super cantoras Eliza Lacerda e Malu von Krüger fazendo os vocais naquele estilo backing vocal clássico. Um luxo!

O cenário ficou por conta de Ana Rezende, que conheci na época como namorada de Gabriel, e que hoje, quatorze anos depois, segue sendo uma das parceiras mais importantes em tudo o que eu faço. Tudo que ela encosta vira ouro. Foto, filme, cenário… nunca mais larguei do pé dela.Ana inventou uns teares gigantes compostos por cordas de uns três metros cada uma, presas em pedaços enormes de madeira que ficavam presos ao chão e ao teto do teatro. Representavam o ato de criação, a "Feitura" da música de Edu Kneip e Alexandre Fróes. Dava um trabalho surreal de montar, ela super inexperiente como eu, e a montagem tirava tempo da passagem de som deixando todos apreensivos. Mas valia a pena no final, como sempre vale com o trabalho da Ana.

O figurino era de Patrícia Lobo, minha amiga de escola que sempre foi uma referência pra mim em estilo e cores, desde a adolescência. Fomos ao centro da cidade, escolhemos os tecidos, ela fez o desenho de um vestido cheio de movimento com as cores da arte feita por Felipe Motta, outro amigo de escola (minha escola era assim, fazer o quê?) e Marianna Cersósimo, numa capa inspirada pela arte do primeiro álbum de Jamiroquai, que eu amava, com um desenho lindo feito a partir de uma foto tirada pela minha mãe na praia de Geribá, onde passei grande parte da minha infância.

Conto esses detalhes todos por um motivo: quem assiste um show, uma peça, um filme, não tem como dimensionar o afeto que permeia o que vê e menos ainda o trabalho investido para que tudo aconteça, por mais simples que pareça a produção. Mesmo que entenda “o que o artista quis dizer” ou que crie seu próprio sentido, que na verdade é o que acaba acontecendo, sempre vai ter muita coisa que é parte do sentido mais íntimo, de memórias e referências que não cabe compartilhar. Não tem como saber, assistindo a um produto final, a quantidade de tempo e de energia empregadas, o stress e o trabalho que entram na equação. E também não tem como ter aquela sensação de ter parido uma criação sincera, não tem como sentir a sensação de dever cumprido que só o artista vai ter quando chega em casa depois de uma noite como aquela.

A pessoa assiste aquela hora, hora e meia de espetáculo, cria sua análise crítica rapidamente e, muitas vezes, sem dó nem piedade, solta pra você comentários displicentemente, ali mesmo no camarim - momento em que, aprendi com Pauleira, jamais deve-se criticar o artista pois é quando seu corpo e alma estão mais vulneráveis e à flor da pele.

Pois bem, findo o show, com alguma dificuldade chego ao lobby do teatro depois de um resgate feito pelo meu pai - que me arrastou pra fora do camarim deixando todos que lá entraram sem perguntar com cara de tacho. Eu morrendo de vergonha de estar sendo mal educada sem nem agradecer ninguém, mas já havia fila de CD na mão me esperando, os primeiros autógrafos da vida seriam dados em instantes, eu nervosa errando nome de amigo, uma delícia e um horror. Aquele sucesso todo que posso relembrar ao olhar a foto que guardo comigo, eu junto com a banda, com Augusto e Ana posando felizes antes do show, que maravilha. Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre, mas aqui vai uma lista de comentários que ouvi naquela noite:

- O show foi ótimo mas o cenário era esquisito e não dava pra entender o que era.

- O cenário estava lindo de morrer, mas aquele vestido me deixava gorda.

- Estava tudo lindo, roupa e cenário, mas faltava uma música famosa.

- Era incrível como criei um show apenas com músicas que ninguém conhecia prendendo a atenção do público até o fim.

- Eu era uma cantora maravilhosa porque lembrava a Elis Regina.

- Eu não podia movimentar os braços de um determinado jeito porque parecia que eu queria imitar a Elis Regina e ficava ridículo.

- Minha interpretação das músicas era muito boa, como se eu digerisse o sentido das palavras e o vomitasse para a plateia de uma forma muito emocional (nunca esqueci este comentário, que não entendi a princípio mas depois amei).

- Eu tinha que tomar cuidado para não interpretar demais as músicas pois ficava forçado.

Esta é a lista dos comentários que ficaram registrados na memória, com certeza houve mais naquela noite e nos dias que se seguiram. Já afônica de cansaço, não sabia se ria, se chorava, se achava que no final das contas foi tudo horrível ou tudo maravilhoso ou se simplesmente partia do princípio que eu não agradaria a todos de nenhuma forma e seguia a vida sabendo que a única coisa que eu deveria me preocupar era se estava ou não sendo sincera com a arte que eu queria fazer. Escolhi a segunda opção. Segue o baile.



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