• Maíra Martins

Uma ida ao Theatro

A estreia da minha filha nos palcos da vida foi no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, aos 10 anos, enquanto eu levei 38 pra chegar até lá. Acho que só quando ela for mais velha terá a dimensão do que aconteceu naquele sábado de outubro de 2018, quando o grupo CRIA fez um show em homenagem ao Dia da Criança e pisamos naquele palco pela primeira vez.


No camarim, eu não parava de lembrar das vezes em que estive lá como plateia. Ocupava aquele espaço com o respeito de quem pisa num local sagrado onde tantos ídolos já pisaram antes. Quem será que já se arrumou naquele espelho? Quem já usou este banheiro? Sim, essas foram as coisas que passaram pela minha cabeça naquele momento - e haja ar para respirar e manter a calma antes do show começar.


O show teria a participação de Zazá, também conhecida (por poucos) como Isadora, que cantaria a música que gravou no nosso segundo disco, “Pra Bagunçar”. Quando tivemos a ideia de chamá-la, fiquei receosa da responsabilidade que este convite implicava. Pedir para uma criança chegar no palco de um teatro daquela magnitude e solar uma música pela primeira vez em público pode ser um pouco demais, pensei. Fiz o convite e ela aceitou com a naturalidade de quem está sendo chamada pra cantar na aula de música. Ok, pensei, mas ela não está tendo ideia do que está topando.


Teríamos o teatro para nós na noite anterior ao show, o que achei um luxo só. Não bastasse pisar no palco, teríamos um ensaio antes pra checar as condições, nos acostumar com o espaço, passar o som, a luz, as projeções. Algo que deveria ser normal na nossa vida de músico, mas, juro, não é. Aproveitei pra levar Zazá ao ensaio pois achei que seria importante que ela visse o lugar, ficasse nervosa antes e se acostumasse, ou até desistisse de cantar, sem stress. Não queria colocar pressão nesta estreia e sinceramente não vejo a menor graça em criança prodígio. Além disso, achava que só valeria a pena ela participar se fosse algo prazeroso e na base da brincadeira.


Nesta época eu trabalhava como professora de música na escola onde ela estudava. O horário era integral e tínhamos ficado lá de 8h às 16:30h lá. Saímos direto, pegamos o metrô, ela de uniforme. Chegamos ao Municipal, no Centro do Rio. O cartaz do show estava na entrada, orgulho danado. Entramos pela porta lateral e lá estávamos nós naquele lobby no qual já entrei tantas vezes em momentos inesquecíveis pra mim. O lobby era nosso, o teatro, camarim, o palco. Só a gente lá passando o show com calma, na noite anterior ao show. Uma felicidade. Entendidos entenderão do que estou falando.


Subimos no palco, Zazá achando tudo NORMAL. Realmente a visão da plateia por quem está no palco é menos assustadora do que eu imaginava - o teatro é maior de um ângulo do que de outro, como num mistério de perspectiva. Ainda sim, é o Theatro Municipal. Eu dizia: tá vendo, este é o palco, essas cadeiras amanhã estarão cheias de gente, mas é só fazer o que você já sabe, eu estarei do seu lado, e qualquer coisa é só me olhar que canto com você, fique tranquila. Ela já estava, ao contrário de mim. Passamos o show completo resolvendo uma coisa ou outra e estava tudo pronto pro dia seguinte.


Chegamos pela manhã. Fui a primeira a chegar, junto com a maquiadora Mariana Stein e a produtora Júlia Menna Barreto, que já corria de lá pra cá acertando os detalhes que nem sei dizer quais eram. Estava lá como artista e só, ufa! Só pra variar…


Os meninos do grupo foram aparecendo: Gustavo Pereira, Mateus Xavier, Fred Cavaliere, Christian Bizzotto e Ayran Nicodemo, que foi quem conseguiu marcar esta pauta pra gente, pois é violinista (e que violinista!) da orquestra do Theatro. O clima do camarim do CRIA é sempre o melhor possível, a gente ri e se diverte a ponto de esquecer o nervosismo. Por último chegaram Augusto Ordine (o maridão), que também faria uma participação especial, e a debutante Zazá.


Depois que o show começou Augusto e Zazá ficaram lá atrás esperando a hora de entrar e a emoção que senti no momento em que ela veio andando lá de trás é impossível traduzir em palavras. Acho que o mais importante do ensaio da noite anterior tinha sido, pra mim, passar algumas vezes este momento do show. Era preciso que eu fizesse o que tinha que fazer, me emocionando sem perder o controle, podendo manter o espetáculo correndo - eu lendo um poema da Cecília Meireles - enquanto vinha a menina mais incrível e amada do mundo cantar para aquela plateia (lotada) no Theatro Municipal. Seu pai viria depois e fecharíamos o show num bis como todos no palco, num gran finale cheio de afeto, sentido, música da mais alta qualidade, enfim, coisas do CRIA.


Vinícius Castro, que é o criador desta história toda e compõe todas as músicas do projeto, estava nos assistindo de longe, não lembro se dos Estados Unidos ou Espanha ou Portugal, com a ajuda da internet e do telefone da Luisa Sales. Nem imagino a emoção e o nervoso de ver tudo aquilo acontecendo tão longe, mas penso que deve ser incrível a sensação de poder estar em dois lugares ao mesmo tempo, e ele estava.


Ao receber a plateia no fim do show, muita emoção nas falas, nos depoimentos, nos abraços. Eram tantas pessoas vindo falar com a gente que em um determinado momento me escondi com Zazá e Augusto no camarim pois senti que ela já estava bem cansada e eu também estava. Ao chegarmos em casa, perguntei como havia sido a sensação de cantar num espaço como aquele, e ela, já interessada em alguma outra coisa que não lembro o que era, responde meio de soslaio: ah, foi legal, mas no final é chato ter que ficar lá pra falar com tanta gente.


Sei que um dia ela vai entender o tamanho do que aconteceu naquele dia. Ela vai entender, também, que somos responsáveis pelo que cativamos - por isso o tempo despendido naquele momento final, por isso os cumprimentos, por isso os abraços. Meu reino por aqueles abraços agora, num momento em que emojis e comentários ocupam o lugar reservado às interações com o público.


Enquanto escrevo este texto e lembro deste momento, sonho que um dia subiremos de novo em um palco como aquele e teremos a sensação de afetar as pessoas in loco. Abraçaremos e seremos abraçados sem medo após o show, e as câmeras dos nossos dispositivos serão trocadas por poltronas recheadas por pessoas de três dimensões, que se emocionarão na nossa frente, ocupando teatros hoje tão saudosos de vida e de arte. Quando este dia chegar, creio que muitos de nós valorizaremos ainda mais os teatros e os artistas. Afinal, não é a arte que está nos salvando de desabar durante tanto tempo? Sonho que, para esta parcela atenta da humanidade, simples idas a shows ou peças, antes sentidas como triviais, ganharão a importância de grandes eventos. Vou ainda mais longe e sonho que nos tornaremos mais gratos com outras pequenas grandes experiências da vida no dia a dia, e faremos de cada coreto de praça um exuberante Theatro Municipal.



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